A era do efêmero (ou da modernidade líquida!)

Fila Apple em New York - Fonte: Reuters

Houve num tempo em que mudanças significativas na vida da sociedade se contavam por séculos; depois, por décadas e nos; agora, ao que parece, meses ou semanas.

Vivemos numa sociedade marcada por sentimentos de mobilidade e individualidade, do ponto de vista das relações sociais, comportamentos individuais, hábitos de consumo, vida amorosa etc. A impressão que se tem é que solidez e estabilidade perderam sentido, sendo substituídas pela autonomia, intensidade de renovação e mudanças recorrentes.

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês radicado em Londres há algumas décadas, cunhou a expressão “modernidade líquida” com o fim de expressar conceito associado à profunda mudança de comportamento na sociedade, vinculada à globalização, internet e consumo. Bauman, autor de diversas obras sobre o tema, afirmou recentemente em entrevista ao caderno Eu & Fim de Semana do Valor que “viver sob pressão de mudanças constantes e, em geral, imprevisíveis favorece uma cultura de esquecimento, em vez de uma cultura do aprendizado e da lembrança”.
Bauman caracteriza a modernidade nesse estágio de consumo como “líquida ou leve”, pois evidenciada por objetos e relacionamentos fluidos, móveis, que não se conseguem apalpar ou “prender pelas mãos”. Próprio da sociedade de consumo, esse ambiente tem como símbolo o software. O espaço não tem qualquer relevância para o resultado. A ausência de controle sobre o espaço físico favorece as mudanças, inclusive as mercadológicas, tão caras para os consumidores.

O tempo é princípio que dita a produção na sociedade de consumo. Quanto mais facilmente substituível for o produto, no menor ciclo de tempo, mais o consumidor se sente inspirado a consumir. As longas filas que se forma nas lojas para aquisição dos produtos da Apple, bem como a expectativa associada às inovações nesses produtos, são exemplos paradigmáticos desse novo modelo.

Com isso, o tempo, ao invés de dominado, passa a dominar as relações de negócios. O tempo fundamental é o instantâneo, on-line, repelindo qualquer iniciativa de domínio. A vida é regida com o mínimo de normas, orientada pela sedução, por desejos sempre crescentes e quereres voláteis. Em outro ponto dessa entrevista, Bauman assinala que “na sociedade consumista da modernidade líquida, as coisas começam a envelhecer já no momento em que nascem, e a distância temporal entre acolhê-las entusiasticamente e rejeitá-las como ultrapassadas vem se encurtando em uma velocidade cada vez maior”. Fantastico raciocínio se pesarmos no espaço infinito de armazenamento de informações propiciado pela tecnologia digital.

Outra faceta a abordar nesse nosso novo tempo é que a expectativa de satisfação passa a ter tanta importância quanto a satisfação em si. Como dizia o sociólogo francês Baudrillard, o pior dos eventos é a percepção de vazio quanto à novidade que está por vir ou os novos e inéditos objetos de consumo. Em decorrência, a economia volta-se para esses objetos e para o oferecimento de serviços obedecendo a tais pressupostos básicos, de curto prazo.

Produtos e serviços são dirigidos para satisfação imediata, com o compromisso de não ultrapassar determinado tempo previsto, abrindo espaço para outra experiência, que realimenta e mobiliza o ciclo. Em síntese, a sociedade consumidora moderna valora, sobretudo, o movimento, a novidade e a instabilidade, entendida como natural ao processo de consumo.

Assim, os parâmetros da sociedade de consumo contribuem para o enfraquecimento da tradição e o fortalecimento do papel das organizações como fornecedoras dos meios para a permanente satisfação de (novas) necessidade dos indivíduos. O consumo gera combustível para manutenção de um sistema economicamente dinâmico e abre caminho para índices cada vez maiores de rentabilidade das empresas.

Contudo, duas questões ficam sem resposta fácil e imediata:
- Qual o impacto dessa situação em relação à sustentabilidade do planeta?
- E como ficam os bilhões, em todos os Continentes, excluídos da capacidade de consumo, agentes passivos (até quando?) desse modelo?

Mercado de Trabalho no Brasil

Gosto muito de artigos que fogem do mainstream ou do “mais do mesmo”. Reproduzo no blog a análise abaixo, publicada na edição de hoje do Valor Econômico (p. A2). Tomo a liberdade de realçar alguns trechos dada a importância do tema atualmente.

Uma visão benigna do mercado de trabalho
Por Cristiano Romero

O índice de desemprego, que vem caindo de forma persistente desde 2003, seguirá em queda neste e no próximo ano. Recuou, nas seis principais regiões metropolitanas, de uma média de 12,3% naquele ano para 6% em 2011. Isso, por si só, já é uma ótima notícia, mas a boa nova não para por aí. Ao contrário do que se imagina, o aquecimento contínuo do mercado de trabalho não representa neste momento um fator de risco para a inflação.

Iconoclasta, o economista Nilson Teixeira, com a ajuda de seu time de analistas do banco Credit Suisse, estudou os números do emprego por dentro e chegou a conclusões reveladoras. Seu trabalho derruba mitos, como o de que há escassez de mão de obra qualificada no país e de que o mercado de trabalho aquecido estaria aumentando os salários de forma significativa.

Uma das constatações de Teixeira é que o recente crescimento do emprego no Brasil tem alterado a composição da ocupação. “As pessoas têm migrado de ocupações informais e caracterizadas por baixa produtividade para outros setores que oferecem melhores condições de trabalho e produtividade mais elevada”, explica. “A redução do subemprego e a maior utilização de capital em algumas atividades são processos que estão elevando a disponibilidade de mão de obra na economia.”

De fato, as Contas Nacionais, apuradas pelo IBGE, mostram que, graças à mecanização, o percentual de trabalhadores ocupados na agropecuária caiu de 22,3% em 2000 para 17,4% em 2009. Isso liberou 833 mil trabalhadores para a indústria e o setor de serviços.

O Brasil é um dos países que mais têm trabalhadores na agropecuária. Entre os ricos, os que têm menos são a Inglaterra (1,4%), os EUA (1,5%) e a Bélgica (1,8%). Entre os emergentes, os que têm mais são a Indonésia (38,6%), Filipinas (31,1%), Turquia (23,7%) e Colômbia (17,5%). O contínuo processo de ganho de eficiência do agronegócio brasileiro tende a fornecer, portanto, mais trabalhadores a outros setores da economia nos próximos anos.

Outros fatores que têm reduzido o risco de escassez de mão de obra são a queda do subemprego e a menor participação da indústria manufatureira no emprego metropolitano. De acordo com a Classificação Brasileira de Ocupações dos microdados da Pesquisa Mensal do Emprego do IBGE, as ocupações que mais contribuíram para o crescimento da população ocupada entre 2003 e 2011 foram as dos profissionais de nível superior, trabalhadores de serviços administrativos, de atendimento ao público e do comércio.

No mesmo período, a participação do emprego na indústria de transformação caiu de 10,1% para 8,7%. Nas ocupações conhecidas como subemprego, como as de serviços domésticos, o recuo foi de 6,6% em 2003 para 6,2% do total em 2011. No caso de vendedores ambulantes e camelôs, a queda foi de 3,2% para 2,2%. O que está ocorrendo no Brasil é salutar: empregadas domésticas e camelôs estão conquistando empregos formais e de melhor qualidade.

“Esses resultados nos sugerem que, além da incorporação do estoque de desempregados, a oferta de trabalhadores no país pode ser elevada nos próximos anos pela mecanização da atividade agropecuária e industrial e pela redução do subemprego. Esses movimentos diminuem ainda mais o risco de a escassez de mão de obra se tornar um obstáculo à continuidade do ciclo de crescimento econômico”, observa Teixeira.

O economista do Credit Suisse acredita que a melhor maneira de medir pressões inflacionárias decorrentes do mercado de trabalho é verificar a evolução do salário real. Entre 2006 e 2011, enquanto a taxa de desemprego média anual recuou de 10,01% para 6%, o crescimento do rendimento médio real da população ocupada oscilou pouco em relação à média de 3,4% do período.

Teixeira cita o caso de Porto Alegre, onde o desemprego tem sido o mais baixo do país (4,4% em janeiro). A estabilidade dessa taxa nos últimos trimestres poderia indicar que a capital gaúcha estaria a pleno emprego e pressionando o custo da mão de obra. Não é o que mostra o rendimento médio real, cujo crescimento em 12 meses em Porto Alegre desacelerou de 7,2% em março de 2011 para 1,3% em fevereiro de 2012. No mesmo período, o ritmo de criação de empregos caiu de 4% para 2,3%.

Outro dado interessante: os salários que mais têm crescido no Brasil são os dos trabalhadores de menor renda e escolaridade. Entre 2006 e 2011, o aumento médio real dos rendimentos foi de 3,4% ao ano – 4% para os trabalhadores com até ensino médio e 0,7% ao ano para os que possuem ensino superior ou títulos como mestrado e doutorado. Em 2010 e 2011, o salário real dos que têm ensino superior recuou, respectivamente, 0,8% e 0,2%.

“Esse desempenho é incompatível com a ideia de que a expansão do mercado de trabalho está tornando os trabalhadores mais qualificados cada vez mais escassos. Pelo contrário, a proporção de trabalhadores com ensino superior ou mestrado e doutorado aumentou de 16,2% em 2004 para 21,1% do total em 2011″, diz Teixeira.

Os números também desmentem a tese de que o desemprego é menor entre os trabalhadores de maior escolaridade. É o contrário. Em dezembro de 2003, a composição do desemprego de 12,3% era assim: 4,9 pontos percentuais referentes a pessoas com mais de 11 anos de estudo; 3,3 pontos a quem possuía entre oito e 10 anos de estudo; e 4,1 pontos a quem tinha menos de oito anos de escolaridade. Em fevereiro deste ano, respectivamente, as participações no desemprego de 5,9% eram: 3,4, 1,4 e 1,1 pontos percentuais.

Conclusão: nos últimos nove anos, o recuo do desemprego foi muito maior entre os trabalhadores menos qualificados. O atenuante a esse fato é que o aumento dos níveis de escolaridade da população, um dado positivo, foi determinante para a concentração dos desempregados na faixa de pessoas com mais anos de estudo.

Teixeira e sua equipe acreditam que o Brasil crescerá apenas 2,5% em 2012 e 4% em 2013, com recuo do desemprego para, respectivamente, 5,8% e 5,2%. “De modo geral, os indicadores recentes e a perspectiva de crescimento moderado da atividade nos sugerem que é baixo o risco de elevação significativa da inflação advinda do mercado de trabalho nos próximos anos”, sustenta ele.

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

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Os emergentes, os resultados do Casino e a estratégia

Jean-Charles Naouri - Presidente do Casino (fonte: google imagens)

Notícias publicadas nesta semana relatam o expressivo crescimento do grupo Casino, comandado por Jean-Charles Naouri, no primeiro trimestre deste ano (Abro parênteses para recomendar a leitura da reportagem de capa da Revista Exame, Edição 1007, sobre o imbróglio CASINO X PÃO DE AÇUCAR ou NAOURI X ABÍLIO DINIZ).

O varejista francês apresentou faturamento global de € 8,7 bilhões, representando um aumento de 11,3% no período. O resultado é explicado pela forte participação dos países emergentes, que cresceu de 45% para 49% em relação ao ano passado. Esta tendência deve levar o Casino a extrair dos emergentes ainda em 2012 mais da metade de suas vendas globais.

Especificamente na América Latina, segundo o Valor Econômico (edição de 18.04.2012, p. B6), o Grupo teve expansão de dois dígitos (13,5%). Por exemplo, no Brasil, o crescimento foi de 9,6%, enquanto na França de 2%; bem mais satisfatório que de seu maior competidor (Carrefour), que amargou queda de 0,5% em seu país de origem.

O que faz uma empresa com um terço das vendas de seu concorrente direto ter mais sucesso empresarial hoje? Além de eficiência operacional, evidentemente, a opção estratégica definida na década passada, de aumentar sua participação em mercados emergentes, em especial os da América Latina e Sudeste Asiático (Tailândia, Vietnã etc.).

Por outro lado, a opção estratégica do Carrefour no Brasil (mercando importantíssimo para o faturamento global da Companhia) de aquisições de dezenas de lojas de rede no início dos anos 2000 mostrou-se equivocada. Os resultados foram frustrantes e o grupo reduziu investimentos em sua rede de hipermarcados.

Outro direcionamento estratégico relevante para sustentação da melhor posição competitiva do Casino frente ao Carrefour foi a manutenção por este da ênfase nos hipermarcados, enquanto o Casino tem foco nos supermercados de bairro, que, ultimamente, no mundo inteiro, mas em especial na França, tem se mostrado a melhor alternativa para os consumidores. As vendas nos hipermercados do Casino em 2010 representavam 29% do faturamento, enquanto as do Carrefour mais de 60%.

Por isso, enquanto um busca a liderança no Setor; o outro se reestrutura para ao menos estancar a sangria de recursos.

Este exemplo mostra como a leitura e a tomada de decisões equivocadas sobre o comportamento do consumidor na formulação de estratégias organizacionais pode colocar em risco a sobrevivência das organizações.

Este não é um caso isolado. Procuraremos neste blog trazer à tona a discussão de diversos outros exemplos.

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Facebook e Instagram – inovação

Muito bom o artigo publicado na edição de hoje, 10.04.2012, no Valor Econômico, página B4, abaixo transcrito, comentando a compra da Instragram pelo Facebook. Aborda a estratégica subentendida, bem como avalia movimento da concorrência e cenários. Cita riscos, de um lado, e oportunidades, de outro, com relação à compra. Mostra que mesmo para um colosso como o Facebook, as possibilidades de erro não são reduzidas.

De qualquer forma, é um risco que o FACE tem condições de absorver.


Desafio é manter capacidade de inovar


Por Gustavo Brigatto | De São Paulo

Apenas dois anos separam a criação do Instagram, a rede social concebida pelo brasileiro Mike Krieger e o americano Kevin Systrom, de sua venda para o Facebook, anunciada ontem, por aproximadamente US$ 1 bilhão. Nesse período, o serviço on-line conquistou 30 milhões de usuários no mundo, sem apresentar um modelo de negócio rentável: o aplicativo que serve de porta de entrada para a rede pode ser baixado e usado gratuitamente, e não há exibição de anúncios publicitários.

Por que um negócio como esse, relativamente desconhecido fora dos círculos mais conectados, e sem uma expectativa de lucro à vista, faria o Facebook desembolsar essa montanha de dinheiro? A resposta parece estar em uma máxima popular: o velho “se você não pode com ele, junte-se a ele”.

Companhias de tecnologia costumam ser muito inovadoras nos primeiros anos, mas a tendência é de uma certa acomodação com o passar do tempo. O risco, para as empresas estabelecidas, é perder o ritmo e ser substituídas por rivais menores e mais ágeis.

Com seu crescimento acelerado, o Instagram poderia se tornar um competidor para o Facebook, dividindo a atenção dos internautas e, principalmente, as verbas de publicidade – fonte de 85% da receita do Facebook. Ao comprar o Instagram em um estágio inicial, a rede social de Mark Zuckerberg pode se beneficiar da fama recém-conquistada pelo produto e, ao mesmo tempo, evitar dores de cabeça futuras.

É um movimento que muitas empresas de tecnologia deixaram de fazer no passado, com sérias consequências para seus negócios. O caso mais latente talvez seja o do hoje combalido Yahoo. No começo dos anos 2000, a companhia teve a oportunidade de comprar o então iniciante Google, que batia à porta dos investidores do Vale do Silício em busca de financiamento para suas operações. Hoje, o Google é a maior empresa de internet do mundo, enquanto o Yahoo luta para voltar aos tempos de glória.

O próprio Yahoo já foi uma oportunidade de ouro perdida para terceiros. Anos atrás, quando esteve no Brasil, o então executivo-chefe da Intel, Craig Barrett, contou que teve a oportunidade de investir no Yahoo, mas recusou, devido a incertezas sobre o potencial da companhia, que se revelaria uma estrela da web.

Uma história já clássica no setor remonta aos anos 80 e envolve a IBM e a Microsoft. Quando fechou um acordo com Bill Gates para usar o sistema operacional Windows em seus computadores pessoais, a “Big Blue” não deu muita atenção para o programa. A ênfase da IBM era vender equipamentos, não software. Não demorou muito para a Microsoft transformar-se em uma gigante dos computadores pessoais, enquanto a IBM passou a se dedicar a serviços de tecnologia e servidores, abandonando o mercado de computadores pessoais que ela ajudou a criar.

A disposição de gastar pequenas fortunas para adquirir produtos com grande potencial, no entanto, gera dúvidas. A primeira interessa particularmente aos investidores. Há muitas empresas atraentes disponíveis, mas ninguém sabe de fato quais farão sucesso no futuro. Uma política agressiva de aquisições pode, portanto, revelar-se ineficaz, além de abrir espaço para uma nova bolha tecnológica. O segundo risco afeta diretamente os consumidores. É o de que, depois de compradas, as empresas nascentes acabem perdendo seu ímpeto, ao ser submetidas às políticas e controles internos mais morosos dos grandes grupos. É quando a inovação acaba sendo vítima de um movimento que tenta preservá-la.

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Maior incerteza dos executivos brasileiros: a regulação

A consultoria Macroplan realizou seminário em que discutiu prováveis cenários para os próximos dez anos no Brasil. O estudo procurou captar as principais incertezas presentes e detectadas pelas companhias nacionais no cenário brasileiro.

A análise de “incertezas” no âmbito da gestão organizacional, e particularmente da formulação de estudos prospectivos, decorreu do princípio formulado no início do século passado pelo cientista alemão Werner Heisenberg. Tal formulação está na essência da elaboração da interpretação teórica da física quântica. Ela estabelece que não é possível ter simultaneamente a certeza da posição e da velocidade de uma partícula e que, quanto maior for a precisão com que se conhece uma delas, menor será a precisão com que se pode conhecer a outra. Esta também é a base da moderna formulação e análise de cenários, bem como estudos de inteligência competitiva.

Conforme afirmam os pesquisadores Elaine Maciel e Alfredo Costa, em artigo publicado no 25º Encontro da ANPAD, em Campinas 2001, “O uso de cenários prospectivos na estratégia empresarial: evidência especulativa ou Inteligência Competitiva?”, o instinto de sobrevivência conduz o homem a buscar respostas para minimizar incertezas que o rodeiam, procurando, assim, garantir sua sobrevivência. Os questionamentos que possuem maior grau de incerteza são os ligados ao futuro, pois a incerteza é uma característica própria do futuro. Dessa forma, o pressuposto subjacente a elaboração de cenários repousa na avaliação das incertezas ambientais.

Contextualizado o conceito de incerteza, é possível voltar aos resultados do estudo da Macroplan, comentados na edição de 21.03.2012 (p. A4) do Valor Econômico. A pesquisa com dirigentes do alto escalão de 80 empresas (varejo, química, financeiro, setor público etc.) apurou que mais de 50% delas não trabalham com horizonte de longo prazo, aqui caracterizado como o de sete anos ou mais para o planejamento de seus negócios.

Tais executivos, longe de desvalorizarem o planejamento estratégico, consideram que incertezas afetam a capacidade de planejamento e de mapeamento de riscos. A regulação, por sinal, foi a variável que obteve maior grau de incerteza, conduzindo as organizações ao raciocínio de curto prazo. Outros fatores de incerteza citados recaíram sobre tecnologia, ambiente e comportamento do consumidor.

O fator regulação como incerteza crítica é corretamente analisado por um dos diretores da Consultoria (Glaucio Neves), como uma desconfiança jurídica em relação à interferência do Estados que prejudica fortemente o planejamento de setores que se caracterizam por investimentos de longo prazo, como o de infraestrutura, insumos básico e exportação.

A análise de incertezas, assim, é poderosa ferramenta gerencial para identificação de possíveis fatos futuros que irão além do ordinário, pois pode alcançar a previsão do irregular, do extraordinário, que, numa análise ortodoxa de cenários, poderiam não ser considerados.

Por esta razão se faz uma análise do ambiente e o levantamento de incertezas dentro dela. Este exercício se realiza para:
• Para reconhecer forças externas e evoluções no setor onde a empresa atua, que condicionam o seu desempenho.
• Para identificação de fenômenos interligados e interdependentes, portadores de ameaças e oportunidades, que orientarão o planejamento empresarial (estratégico e operacional).
• Para equalização de informações.
• Para prevenção em face de pequenas oscilações no ambiente.
• Para o desenvolvimento de análises que possam contribuir para compreensão de potenciais mudanças no ambiente e para identificação de tendências.

Este levantamento da Macroplan é bem elucidativo primeiro por identificar o fator de maior incerteza (regulação), depois, que este fator impacta a capacidade de planejamento de longo prazo das organizações (privadas e públicas), que o levantamento de incertezas é fundamental para construção de cenários e, por fim, que estes traze valiosa contribuição para a construção do planejamento estratégico.

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