A governança corporativa mais ajuda ou atrapalha no funcionamento de startups?

Jose Gaspar Nayme Novelli

Quando se pensa em governança corporativa, logo vem a imagem de estruturas de acompanhamento, procedimentos organizados, reuniões, métricas de resultados, enfim, ideias ligadas a transparência e controle. Por outro lado, quando se pensa em startup, velocidade na ação, agilidade na decisão, criatividade emergem em nossa imaginação como marcas do funcionamento deste tipo de empresa.

Estamos acostumados a rótulos e a reprodução de muitos desses rótulos em fatos. Por essa linha, pensaríamos tais atributos de governança corporativa e de operação de startups como inseridos em dimensões antagônicas e não complementares. Se ficarmos na superfície dos fatos, a governança corporativa traria burocracia para as startups. Vamos, porém, mergulhar um pouco nesta análise.

Minha tese é que práticas de governança corporativa (GC) ajudam (e muito) o sucesso de startups.

O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) pesquisou a percepção de gestores de startups sobre o papel da governança corporativa no estudo “Governança Corporativa em Startups e Scale-Ups: Práticas e Percepções”. Para 87,3% dos 150 gestores pesquisados, a governança corporativa se faz necessária na hora de captar investimentos para expansão do negócio. Práticas de GC são o motor do crescimento dessas empresas. Adoto duas premissas para refletir sobre o tema: (1) para crescer é necessário investimento e (2) para investir é necessário mitigar riscos por meio da adoção dos princípios de transparência, prestação de constas, responsabilidade corporativa e regas para tratamento justo e equânime de todos os sócios.

A inversão de recursos não ocorre somente pelo reconhecimento de uma boa ideia, mas pela sustentabilidade do negócio. Neste aspecto, os resultados da pesquisa mostram como os gestores das startups estão conscientes da vinculação entre governança e crescimento econômico.

Quando questionados sobre a ideia que têm sobre governança, espontaneamente a vinculam aos termos “transparência”, “gestão” e “processos de compliance/controle”. Da mesma forma, por iniciativa própria, consideram como as três práticas de GC mais relevantes:

• Formalização de contratos com clientes, a fim de preservar o valor da empresa.
• Implantação de controles internos para garantir a precisão na prestação de contas, o que potencialmente trará benefícios na captação de investidores.
• Formalização da relação entre os sócios, por meio da elaboração de estatuto, contrato social ou acordo de sócios para garantir transparência e formalização de regras tanto na tomada de decisão, quanto na saída e entrada de sócios, aportes de capital e mecanismos de arbitragem.

Há, todavia, um gap entre o grau de importância que se reconhece na adesão a práticas de GC e o grau de conhecimento para implantá-las. Esta questão somente se resolve com a preparação dos proprietários e conselheiros na gestão dos princípios e práticas corporativas. Há uma compreensão disseminada que sem regras claras para balizar o relacionamento entre sócios, estratégias bem definidas e compromissos com os princípios da boa GC não haverá aportes relevantes e sem aportes, não haverá crescimento.

Outra informação valiosa que se extrai da pesquisa é que a introdução das práticas de governança corporativa nas empresas deve ser dosada de acordo com o estágio de desenvolvimento do negócio. Estruturação de conselhos de administração, por exemplo, não é algo que se imagina recomendável no estágio inicial de criação da startup. Excesso de controle neste momento pode inclusive prejudicar a evolução do negócio.

Quanto mais próxima do escalamento do negócio, maior a necessidade de construção das estruturas de governança, visando dar sustentação ao desenvolvimento da empresa, em especial quanto à atração de novos investimentos.

Em resumo, sim, a governança corporativa ajuda o crescimento de startups quando suas práticas são incorporadas segundo o estágio de desenvolvimento da empresa. Embora tenhamos no Brasil vários unicórnios consolidados, a taxa de mortalidade de 75% das startups ainda é alta. Uma nova pesquisa seria interessante para identificar o quanto da mortalidade está associada à ausência de mecanismos de governança corporativa.

Detalhes sobre os resultados da pesquisa no site do IBGC – www.ibgc.org.br.

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