Brumadinho e a Tragédia da Ausência de Propósito

Jose Gaspar Nayme Novelli

5/02/2019

O rompimento da barragem da Vale na Mina Córrego do Feijão trouxe uma sensação de que algo está muito errado no Brasil quanto à incorporação do Propósito na execução das estratégias das empresas, sem falar na capacidade de fiscalização do Estado.

A descomunal tragédia de vidas humanas e os impactos socioambientais decorrentes fazem pensar se o olhar para além do retorno ao acionista de fato se incorporou nas decisões estratégicas das empresas ou se todo o discurso a respeito de compromissos com o ambiente, interesses dos empregados e a sociedade foi mera empulhação publicitária.

Os maiores cuidados com relação aos impactos da produção no meio ambiente foram uma opção ou uma obrigação das empresas frente a mudanças de legislação?

A princípio, não havia questionamentos legais sobre a performance da Vale em relação à barragem que se rompeu.

Pra mim fica uma dúvida crucial: o Propósito que beneficiaria toda a cadeia de stakeholders da Vale se submeteu ao interesse do máximo retorno ao acionista?

É importante lembrar que o Propósito é uma posição demarcada pela empresa no ambiente em que atua. Segundo Nikos Morkogiannis (Purpose: the starting point of great companies), um propósito de sucesso incorpora uma profunda sensação de autoconsciência: o que o mundo solicita que eu faça? Sim, o propósito exige pensar “fora da caixa”, em se debruçar sobre algo grande que traga sentido para o dia-a-dia.

O Propósito de uma organização não é inventado, é descoberto! Não se traduz por objetivos e metas; ao contrário, os antecede, reduzindo riscos de perda de foco e aumentando o potencial de inovação e de melhoria de relacionamento com clientes priorizados.

Coincidentemente, no dia 11/01/2019, alguns dias antes da Tragédia de Brumadinho, o Valor Econômico publicou um artigo de Andrew Edgecliffe-Johson, com o sugestivo título “As Empresas Deveriam Colocar os Propósitos antes dos Lucros?”. Em síntese, o autor questiona se a doutrina da primazia do lucro – não o lucro a qualquer custo, mas sua primazia – ainda vige na prática na maioria das empresas. Os acionistas ainda têm o seu interesse privilegiado em relação aos interesses dos demais stakeholders, tais como colaboradores internos, sociedade, meio ambiente?

A essas perguntas adiciono outras: a Vale realmente estava preocupada com sua reputação após o Desastre de Mariana a ponto de fazer alterações substantivas na sua atuação socioambiental, mesmo que isso significasse alteração no patamar de ROI em face de investimentos realizados? Onde se encontravam os membros do Conselho de Administração que tem por função avaliar e cobrar estratégias de desempenho e retorno sustentável e avaliar práticas nocivas à imagem e ao retorno de longo prazo da empresa?

Quando o Propósito guia as decisões estratégicas de uma empresa ou instituição, os fins não justificam os meios. O lucro se subordina a algo maior: o sentido da existência da empresa ou instituição.

Por vezes, imagina-se a incompatibilidade da adoção de uma perspectiva de gestão orientada para o propósito e a perspectiva orientada ao lucro, quando na verdade pesquisas demonstram que organizações que priorizam o propósito têm probabilidade de retorno maior que aquelas sem esta prioridade.

Avançamos desde que Milton Friedman há sessenta anos atrás argumentava que qualquer coisa senão o lucro nas empresas seria puro socialismo. Acredito que as empresas mais competitivas hoje avaliam as repercussões de suas atividades no meio ambiente. Todavia, há diferença entre considerar o meio ambiente nas estratégias e inserir os interesses dos demais públicos no mesmo nível que os interesses dos acionistas.

Do luto de Brumadinho, saio convencido que quanto mais uma empresa se orienta por meio do Propósito, maior o compromisso com a esfera social na prática de suas atividades operacionais e menor a chance de a ganância prevalecer.