É preciso utilizar metodologias ágeis na elaboração do planejamento estratégico

Jose Gaspar Nayme Novelli

Planejamento é antecipação de movimentos. Estratégia é foco e prioridade em tempo determinado. Mas nas empresas atualmente quando se fala em planejamento estratégico a percepção geral é de algo oneroso, burocrático e que pouco ou nada ajuda a superar os desafios e a melhoria do desempenho.

A chegada das startups no mundo corporativo promoveu rupturas na gestão que também alcançam a elaboração do planejamento estratégico. Essas mudanças resgataram a necessidade de o planejamento estratégico ser de fato ferramenta que promove agilidade em prol da gestão do negócio.

Se, portanto, agilidade é fator crítico de sucesso nos negócios, alguns pontos relativos ao modelo tradicional do planejamento estratégico precisam ser questionados.
1) É possível o planejamento estratégico, hoje, ser elaborado para um período de três, cinco ou mais anos, exceto quando se dirigir a setores muito específicos?
2) Não seria adequado dar mais foco no curto/médio prazos que no longo, em face do atual ambiente externo volátil?
3) O planejamento estratégico rigidamente estruturado em suas partes não restringe a capacidade interna de ajustes de iniciativas, como exclusão de propostas que deixaram de ser relevantes e a inclusão de outras para atender oportunidades emergentes?

Portanto, incluir ferramentas ágeis no planejamento estratégico supõe uma mudança de concepção de sua finalidade, associada ao escopo de abrangência e ao tempo de duração.

O planejamento estratégico ágil adota como princípio a satisfação do cliente/usuário pela oferta de valor em bases contínuas, além de simplificar o processo e a capacidade de estruturar portfólios de projetos enxutos que precisam ser construídos e medidos para rapidamente satisfazer necessidades de clientes e superar obstáculos ambientais.

O método ágil almeja entregar um pequeno conjunto de ofertas aos clientes tão rapidamente quanto possível. Céleres interações dentro das áreas ocorrem em prol da inovação. Renuncia-se a rígidos marcos de controle metodológico em favor da incorporação de um conjunto de regras pautadas pela flexibilidade de ação e adaptação a eventos inesperados.

Diversas ferramentas ágeis encontram-se disponíveis para utilização no planejamento estratégico, orientando a elaboração de objetivos sustentáveis e alinhados ao propósito da organização, à previsão de mecanismos de repostas rápidas a mudanças, ao envolvimento dos dirigentes no monitoramento, a fluidez na comunicação interna do planejamento e a construção de protótipos na elaboração de projetos corporativos.

Nos últimos tempos, todos nós, no setor privado e público, tivemos que rever nossos planos com o aparecimento da COVID-19 e suas consequências sociais e econômicas. O modelo tradicional de revisão de planos exigiria a catalogação de dados, análises preliminares de modelos, apresentação de inúmeros dashboards, de resultados, de análise SWOT etc. para decisões que deveriam rápidas. O modelo ágil descentraliza ações, centraliza monitoramento, estimula a inovação e a revisão de despesas não essenciais.

Uma boa dica para formulação do plano estratégico é dividi-lo em cinco etapas-chave, conforme Jake Knapp aborda no livro Sprint (Intrínseca, 2017):
• mapear o problema e escolher o ponto a se concentrar (novas oportunidades ou revisão de projetos ou de estrutura de despesas);
• esboçar soluções, considerando movimentos já realizados no ambiente;
• transformar ideias em hipóteses a serem testadas;
• construir propostas realistas, inclusive por meio de protótipos; e
• testar para comprovação da eficácia das iniciativas estratégicas idealizadas.

O período de um ano ou dezoito meses parece ser o ideal para a revisão das premissas que balizaram a formulação do planejamento estratégico. Agilidade, portanto, está associada à descentralização, foco em um conjunto selecionado de programas e projetos alinhados ao propósito central da empresa, permitindo flexibilidade e reanálises de prioridades no curto prazo.

A Revista Exame publicou pesquisa da Bain Company a partir de 72 estudos acadêmicos internacionais (https://bit.ly/3aZoDam) em 13/08/2020, relatando que 91% das empresas apontaram resultados positivos com a introdução de métodos ágeis em seus processos.

A introdução da metodologia ágil na formulação, implantação e monitoramento do planejamento estratégico abre a possibilidade da incorporação de novas práticas para o resgate do papel que a estratégia deve oferecer às organizações: posicionamento empresarial rápido e preciso em face dos desafios ambientais.

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