Encontro da European Academy of Management – Euram 2018

Bento Alves Costa Filho

22/07/2018

O encontro da European Academy of Management, o Euram 2018, deste ano ocorreu em Reykjavik, Islândia, um país que impressiona os visitantes por suas belezas naturais típicas de uma ilha vulcânica. Também impressiona a maneira harmoniosa e sustentável como eles ocupam seus espaços, com construções em estilo nórdico; vale lembrar que a Islândia é um país de origem nórdica, tendo sido colonizado pelos noruegueses dos quais herdaram costumes e língua. O clima é um pouco hostil – mesmo no verão, o termômetro quase não ultrapassa 10º Celsius com muito vento e chuva, o que pode não agradar a quem sempre viveu nas proximidades do Equador e Trópico de Capricórnio, como é o caso dos brasileiros.

Dois assuntos se destacaram nesta versão do Euram: (1) a aplicabilidade nas organizações das pesquisas geradas na academia e (2) a questão da participação da mulher na área de gestão. Sobre o uso da pesquisa, o próprio tema Research in Action – Accelerating Knowledge Creation in Management por si só já denota a preocupação de aproveitamento pelas empresas daquilo que se produz nas universidades. Vale lembrar que este é um assunto recorrente na área acadêmica de administração, que é criticada por bastar-se a si mesma e produzir pesquisas de forma endógena, somente com a finalidade de publicação em periódicos acadêmicos qualificados, sem se preocupar com a aplicabilidade nas organizações dos novos conhecimentos gerados.

Em relação às questões de gênero, foram muitas as pesquisas apresentadas envolvendo a crescente participação feminina nas organizações: papéis e desafios da mulher no conselho de administração das empresas, desafios e sacrifícios em relação à carreira executiva, empreendedorismo e lideranças femininas, assédio sexual e discriminação, papel da mulher em negócios familiares, gestão de talentos, dentre outros. O grupo de interesse (SIG) que discute gênero, discute também raça e diversidade nas organizações. Houve uma sessão plenária muito interessante que abordou a questão do impacto crescente do nacionalismo, protecionismo e direitos de imigração nas organizações.

Além destes temas, outros assuntos relevantes foram objetos de discussão como o entendimento dos textos produzidos em administração e a educação do futuro nos cursos de administração. Percebeu-se uma preocupação com a tradução da pesquisa em management em artigos que possam ser lidos e entendidos pela mídia e público em geral, o que pode reduzir um pouco o fosso entre academia e prática gerencial, alvo de muitas críticas por parte da sociedade.

Uma palavra sobre a organização do Euram: as pesquisas e palestras apresentadas durante as sessões plenárias (de interesse geral) e paralelas (apresentações de papers específicos) são oriundas de diversas áreas de interesse. A organização do Euram denomina estas de Strategic Interest Groups (SIG), formados por 13 grandes temas em torno de teoria e práticas de gestão, que seguem abaixo:

1. Business for Society
2. Corporate Governance
3. Entrepreneurship
4. Family Business Research
5. Gender, Race and Diversity in Organizations
6. Innovation
7. International Management
8. Managing Sports
9. Organizational Behavior
10. Project Organizing
11. Public and Non-Profit Management
12. Research Method and Research Practice
13. Strategic Management

A partir desta organização já é possível notar uma diferenciação importante em relação aos formatos mais utilizados em administração/gestão. Percebe-se que não se utilizam as subdivisões nas tradicionais áreas de Marketing, Finanças, Gestão de Pessoas, Gestão de TI, Contabilidade, Gestão de Operações e Logísticas, etc. As áreas (tradicionais) estão contidas dentro dos 13 grandes temas elencados acima. Cada um destes temas é gerido por uma equipe de pesquisadores com conhecimento no assunto. A qualquer tempo, novos SIG’s podem ser sugeridos ao board do Euram. Uma vez que os temas abordados estão em constante evolução, é possível vislumbrar que este formato torna a abordagem à pesquisa em administração um tanto mais dinâmica que aquela focada nas conhecidas e tradicionais divisões acadêmicas.

É realmente compensador participar do evento. Os autores que submetem seus papers se transformam todos em revisores de sua área, o que gera um envolvimento bastante motivador desde o início do processo de participação. Além disso, o networking internacional ao qual o participante tem acesso é realmente um dos aspectos mais interessantes do encontro. É possível perceber que os colegas de instituições de ensino superior de renome por toda a Europa enfrentam dificuldades e desafios semelhantes àqueles encontrados pelos professores e pesquisadores brasileiros. Por fim, vale mencionar o nome do organizador do Euram 2018 (Conference Chair), Eythor Ivar Jonsson, da Universidade da Islândia, um anfitrião de primeira grandeza, que com bom humor e inteligência fez todos os visitantes se sentirem em casa, em seu receptivo e gelado país.