Propósito, Governança e Retorno

Jose Gaspar Nayme Novelli

2/09/2019

Algo estranho às velhas práticas corporativas vem ocorrendo nos EUA, com efeitos no Brasil. O VALOR ECONÔMICO, na edição de 30/08/2019 (“O novo normal dos negócios é aliar lucro a critérios mais sustentáveis de aplicação”), publicou levantamento sobre o sobre o crescimento da adesão das corporações norte-americanas, dentre elas Apple, Walmart, Pepsi, ao manifesto de CEO em prol da valorização de consumidores, funcionários, fornecedores e comunidades e contra a supremacia dos acionistas no conjunto de stakeholders.

Verdadeira ruptura quando se trata do clássico modelo de governança corporativa norte-americano que apregoa a prevalência do lucro sobre todas as demais partes interessadas.

A matéria salienta que o forte posicionamento público de mais de 180 CEOs, embora ainda no campo das intenções, caminha em direção à formação de um grupo permanente de discussão de agendas de investimentos sustentáveis, baseado na premissa que o propósito do capitalismo é trabalhar por todos e pelo longo prazo.

Há algum tempo uma mobilização de proprietários e dirigentes corporativos criou o grupo chamado B Corporations, nascido nos EUA mas presente em mais de 64 países, inclusive Brasil, com o fim de disseminar práticas sustentáveis e certificar organizações como formuladores de política ambiental para contratação de fornecedores e redutoras de grandes diferenças salariais entre dirigentes e empregados, dentre outros aspectos.

Gestoras de recursos já orientam os executivos nas empresas que detêm capital para olharem além do lucro cuidando da solidez e garantia de retorno social.
Esta visão de gestão da governança sustenta-se em estudos que demonstram relação entre desempenho melhor e parâmetros de responsabilidade socioambiental. Segundo levantamento da empresa de investimento Morningstar (https://www.morningstar.com), mais de 34% dos fundos que adotam premissas de sustentabilidade para investimento encontram-se entre os 25% mais rentáveis e 63% dentre eles entre os 50% de melhor retorno.

A ANBIMA confirma que esta vertente encontra eco por aqui. Basta ver que hoje 160 empresas brasileiras são certificadas no Sistema B e há 4,4 mil processos de certificação em andamento.

Portanto, observa-se uma tendência, inclusive nos EUA, ao crescimento da prática de governança cada vez mais orientada a um sistema que trata de forma equânime os interesses e relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas. Será o fim da prevalência dos interesses dos proprietários?

Vamos acompanhar o alcance e a velocidade de implementação desta concepção.