O Sinal e o Ruído (Nate Silver, Intrínseca, 2012)

Nate Silver e seu blog FiveThirtyEight são, hoje, uma estrela no cenário eleitoral americano pela capacidade analítica e preditiva da atual campanha presidencial disputada entre Clinton e Trump. Especialmente na mídia de lá, é comum comentários de especialistas em política virem ancorados em projeções desenhadas pelo FiveThirtyEight.  Nate está longe de ser um showman, ele mais se parece um daqueles nerds mergulhados em números e técnicas estatísticas.

Tudo começou como um passatempo associado à análise de performance de jogadores de beisebol, seu esporte preferido, até se transformar em referência no campo das projeções.

Qual metodologia ele usa? Quais os pressupostos que antecedem e suportam a aplicação das técnicas? Quais os limites da análise? Essas e outras informações estão em “O Sinal e o Ruído: por que tantas previsões falham e outras não” (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012), um livro extremante técnico e ao mesmo tempo divertido, em razão da redação tranquila, didática e bem-humorada.

Nate Silver parte de omissões e erros de previsão para abordar os “furos” nas metodologias empregadas e sugere caminhos para evitá-los, que servem para pessoas, governos e empresas. Há três considerações do autor que praticamente formam o eixo de suas reflexões ao longo do livro.

  • Como o funcionamento do raciocínio humano é ancorado na formação de “padrões”, somos rápidos nas interpretações dos fatos sem imaginar que corremos o risco de achar padrões onde eles não existem. (Este é o risco já apontado por Daniel Kahneman em “Rápido e Devagar”, Saraiva).
  • As previsões são exercícios indispensáveis em nossa vida. Embora NUNCA sejamos capazes de fazê-las de maneira perfeitamente objetiva, devemos ter o compromisso de buscar tal objetividade.
  • Precisamos ficar mais a vontade com a incerteza e a probabilidade e, assim, pensar com mais cuidado sobre os pressupostos e as crenças que adotamos para a análise de um problema.

Os erros comuns que gravitam em torno das previsões são a concentração de atenção nos indícios que contam a história de um mundo ideal e não real; a desconsideração dos riscos mais difíceis de aferir, mesmo quando oferecem as maiores ameaças; e a realização de estimativas muito rudimentares.

Dessa forma, enquanto a “previsão” é uma declaração definitiva e específica sobre, por exemplo, quando e como haverá um terremoto, a projeção é uma declaração probabilística, em geral, em uma escala de tempo maior. É impossível prever terremotos, mas é possível fazer projeções, como a que se diz que em 30 anos haverá um terremoto de grandes proporções na Califórnia, afirma Silver.

Como já se abordou em post específico deste blog, TEMOS HORROR À INCERTEZA, o que nos traz insegurança e impregna de viés nossa análise. Um dos melhores momentos do livro é quando Silver aborda a diferença entre risco e incerteza: “a incerteza é o risco difícil de aferir.”  O risco lubrifica as engrenagens da economia de livre mercado; a incerteza, diz o autor, é o cascalho que faz a engrenagem parar.

Se controlarmos a arrogância e empáfia em nossas análises e soubermos manejar com cautela os dados empíricos, teremos chance de reconhecer com mais rapidez até que ponto possíveis RUÍDOS distorcem as informações e nos levam a acreditar em falsos SINAIS. Assim, análises prospectivas consistentes são aquelas que encontram sinais em meio a ruídos.

Concluindo, o livro trata menos do que conhecemos e mais da diferença entre o que conhecemos e o que acreditamos conhecer. Como remédio, Nate Silver prescreve a utilização do pensamento de modo probabilístico, ou seja, a aceitação que percepções subjetivas do mundo são aproximações da verdade.

O  ‘Sinal e Ruído” também pode ser encontrado na edição e-book.